Um inventário de palavras de um texto poético não "desvenda" segredos, não se impõe como uma fórmula de criar bons textos. Ele simplesmente apresenta todas as imagens, escolhas lexicais e quaisquer outras escolhas feitas pelo poeta. Esse recurso expõe exatamente isso: as escolhas do autor, o repertório fruto dessas escolhas que inicia e encerra o texto. Revela trajetos e os resultados dessas escolhas. A qualidade do impacto dessas palavras no conjunto do tema é apenas é incidental na recepção do leitor. O inventário apenas procura encontrar caminhos, mapeamentos que ampliam a possibilidade do leitor de achar um modo de ler o poema. O padrão de palavras repetidas nesses novos inventários permite revelar uma imagem geral, assim como de palavras que se isolam no conjunto, que podem ser índices de afetos e impressões do poeta sobre o tema. Levantados esses inventários, cabe ainda a leitura desse padrão e desses desvios. Um inventário não é a fórmula mágica de interpretação, é apenas um trajeto.
Paul Éluard
Lembrança afetuosa
Houve um grande riso triste
O pêndulo parou
Um bicho do mato salvava seus filhotes.
Risos opacos em quadros de agonia
Tantas nudezes transformando em irrisão a sua palidez
Transformando em irrisão
Os olhos virtuosos do farol dos náufragos.
Inventário de tempo: "houve", "parou", "salvava", "transformando";
Inventário de imagens: "palidez", "pêndulo", "nudezes", "farol dos náufragos";
Inventário de afetos: "riso triste", "quadros de agonia", "irrisão", "olhos virtuosos";
Inventário de símbolos de passagem do tempo: "pêndulo", "opacos", "quadros", "farol";
Inventário de palavras positivas: "salvava", "virtuosos";
Inventário de palavras negativas: "triste", "opacos", "agonia" "irrisão";

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