Convém explicar inicialmente que a técnica aqui aplicada, S+7, foi desenvolvida por Jean Lescure, membro do OuLiPo (link na página oficial do grupo aqui), que consiste em apanhar todos os substantivos de um texto e trocar pelo sétimo que lhe segue na ordem de um dicionário comum. Os novos referentes forçarão o autor a encontrar novos caminhos para o texto base, sem, contudo, modificar sua diegese (argumento). Neste caso, usei o dicionário minidicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Segue a fábula "O leão e o Rato", os substantivos alterados e a nova fábula. Já fizemos algo semelhante com outra fábula, aqui.
O Leão e o Rato
Certo dia, estava um Leão a dormir a sesta quando um ratinho começou a correr por cima dele. O Leão acordou, pôs-lhe a pata em cima, abriu a bocarra e preparou-se para o engolir.
- Perdoa-me! - gritou o ratinho - Perdoa-me desta vez e eu nunca o esquecerei. Quem sabe se um dia não precisarás de mim?
O Leão ficou tão divertido com esta ideia que levantou a pata e o deixou partir.
Dias depois o Leão caiu numa armadilha. Como os caçadores o queriam oferecer vivo ao Rei, amarraram-no a uma árvore e partiram à procura de um meio para o transportarem.
Nisto, apareceu o ratinho. Vendo a triste situação em que o Leão se encontrava, roeu as cordas que o prendiam.
E foi assim que um ratinho pequenino salvou o Rei dos Animais.
Moral da história: Não devemos subestimar os outros.
Jean de La Fontaine
Palavras alteradas no dicionário, a partir do 7º substantivo encontrado depois de cada palavra:
Leão > "Legado";
Rato > "Ré" (parte da embarcação que ficava entre o mastro grande e a popa);
Dia > "Diacho";
Sesta > "Setilha" (estrofe de sete versos);
Pata > "Patativa" (ave);
Bocarra > "Bode";
Vez > "Via-Sacra" (os 14 fatos marcantes da vida de Cristo);
Ideia > "Idiomatismo" (idiotismo);
Armadilha > "Armarinho" (loja de miudezas);
Caçadores > "Caçapa" (buraco da mesa de sinuca);
Rei > "Réis" (moeda);
Árvore > "Asbesto" (amianto);
Meio > "Mel";
Situação > "Soba" (chefe de tribo africana);
Cordas > "Cordoalha" (cordame);
Animais > "Anistia" (perdão de crime político);
Moral > "Morcego";
História > "Hitlerismo".
Nova fábula:
O Legado e a Ré
Certo de suas extremas qualidades, um diacho que se achava e era o próprio Legado da Poesia, estava a dormir, sonhando nova setilha, quando um desses poetas modestos, de poucas rodas poéticas, restrito como rézinha que era, começou a correr os olhos por cima dele. O Legado acordou, viu aquele ser com modos de patativa em cima de um palco, abriu a boca e riu como um bode, e preparou-se para o engolir com sua retórica.
- Perdoa-me! - gritou o rézinha - Perdoa-me, se vivo esta via-sacra de dísticos e quadrões, que eu, por minha vez, nunca o esquecerei em tão imodesto sono. Quem sabe, diacho, não precisarás de mim?
O Legado ficou tão divertido com o idiotismo de seu poetinha popular, que o fez voar para longe, como a patativa que realmente o achava, e o deixou partir.
Diachos são assim, entre tentações e recusas a quem busca neles os benesses da fama. Depois, em disputada peleja de motes numa feira, o Legado caiu em versos kitschs de armarinho, badulaques de metáforas frias. Como caíra infeliz em cada uma das caçapas do outro poeta, e já os demais da roda o queriam oferecer vivo ao povo risonho, a troco de alguns míseros réis, amarraram-no a uma rima de asbesto, tóxico para poetas menores, e partiram à procura de uma chave de ouro de mel para o transportarem para o deserto dos maus poetas.
Nisto, apareceu o rézinha. Vendo a cara de soba em terra estranha em que o Legado se encontrava, roeu as cordoalhas que o prendiam aos motes quentes do outro poeta, e colocou o inimigo fora da roda com rimas e dísticos de apoio.
E foi assim que um rézinha pequenino salvou o poeta de poucos réis, dando-lhe anistia.
Não era morcego aquele poetinha, era ave rara do sertão contra as sanhas do hitlerismo que ainda impera na Poesia: Não devemos subestimar os outros.
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| O poeta Patativa do Assaré |
O Leão e o Rato
Certo dia, estava um Leão a dormir a sesta quando um ratinho começou a correr por cima dele. O Leão acordou, pôs-lhe a pata em cima, abriu a bocarra e preparou-se para o engolir.
- Perdoa-me! - gritou o ratinho - Perdoa-me desta vez e eu nunca o esquecerei. Quem sabe se um dia não precisarás de mim?
O Leão ficou tão divertido com esta ideia que levantou a pata e o deixou partir.
Dias depois o Leão caiu numa armadilha. Como os caçadores o queriam oferecer vivo ao Rei, amarraram-no a uma árvore e partiram à procura de um meio para o transportarem.
Nisto, apareceu o ratinho. Vendo a triste situação em que o Leão se encontrava, roeu as cordas que o prendiam.
E foi assim que um ratinho pequenino salvou o Rei dos Animais.
Moral da história: Não devemos subestimar os outros.
Jean de La Fontaine
Palavras alteradas no dicionário, a partir do 7º substantivo encontrado depois de cada palavra:
Leão > "Legado";
Rato > "Ré" (parte da embarcação que ficava entre o mastro grande e a popa);
Dia > "Diacho";
Sesta > "Setilha" (estrofe de sete versos);
Pata > "Patativa" (ave);
Bocarra > "Bode";
Vez > "Via-Sacra" (os 14 fatos marcantes da vida de Cristo);
Ideia > "Idiomatismo" (idiotismo);
Armadilha > "Armarinho" (loja de miudezas);
Caçadores > "Caçapa" (buraco da mesa de sinuca);
Rei > "Réis" (moeda);
Árvore > "Asbesto" (amianto);
Meio > "Mel";
Situação > "Soba" (chefe de tribo africana);
Cordas > "Cordoalha" (cordame);
Animais > "Anistia" (perdão de crime político);
Moral > "Morcego";
História > "Hitlerismo".
Nova fábula:
O Legado e a Ré
Certo de suas extremas qualidades, um diacho que se achava e era o próprio Legado da Poesia, estava a dormir, sonhando nova setilha, quando um desses poetas modestos, de poucas rodas poéticas, restrito como rézinha que era, começou a correr os olhos por cima dele. O Legado acordou, viu aquele ser com modos de patativa em cima de um palco, abriu a boca e riu como um bode, e preparou-se para o engolir com sua retórica.
- Perdoa-me! - gritou o rézinha - Perdoa-me, se vivo esta via-sacra de dísticos e quadrões, que eu, por minha vez, nunca o esquecerei em tão imodesto sono. Quem sabe, diacho, não precisarás de mim?
O Legado ficou tão divertido com o idiotismo de seu poetinha popular, que o fez voar para longe, como a patativa que realmente o achava, e o deixou partir.
Diachos são assim, entre tentações e recusas a quem busca neles os benesses da fama. Depois, em disputada peleja de motes numa feira, o Legado caiu em versos kitschs de armarinho, badulaques de metáforas frias. Como caíra infeliz em cada uma das caçapas do outro poeta, e já os demais da roda o queriam oferecer vivo ao povo risonho, a troco de alguns míseros réis, amarraram-no a uma rima de asbesto, tóxico para poetas menores, e partiram à procura de uma chave de ouro de mel para o transportarem para o deserto dos maus poetas.
Nisto, apareceu o rézinha. Vendo a cara de soba em terra estranha em que o Legado se encontrava, roeu as cordoalhas que o prendiam aos motes quentes do outro poeta, e colocou o inimigo fora da roda com rimas e dísticos de apoio.
E foi assim que um rézinha pequenino salvou o poeta de poucos réis, dando-lhe anistia.
Não era morcego aquele poetinha, era ave rara do sertão contra as sanhas do hitlerismo que ainda impera na Poesia: Não devemos subestimar os outros.

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