O Ateliê de Arte e Literatura Potencial

Há muitos anos, como escritor e poeta com guardados (muitos guardados) na gaveta, e um texto publicado em uma antologia literária (de somenos, tudo isso), tenho estabelecido uma relação com a cultura verbal e não-verbal, que vê a inspiração nos próprios mecanismos dessa cultura, e encontra não nela, mas neles, os subtextos que procuro reordenar em formas definidas e familiares.

Uma vez que a velha discussão entre forma e conteúdo parece estar apaziguada em favor da ideia que gera a forma, sigo, juntamente com outros marginais da literatura, inspirados neles e nos ossos do Sistema, a gerar formas a partir da inspiração, ou a gerar inspiração a partir delas. Que sejam os jornais, a leitura de mundo, as enciclopédias e as notícias virtuais (a verdade virtual e os referentes holográficos) as fontes de inspiração de muitos artistas. As minhas são tudo isso e toda a parafernália e engrenagens que realizam a máquina de aforismos do Sistema. A palavra viva, a palavra morta, a sílaba e as onomatopeias, os sistemas da moda, as arbitrariedades linguísticas e os grandes/pequenos discursos. 
A pergunta da criança que vira o playmobil do sujeito que escreve.  Precipícios de lençóis e foguetes de palitos de fósforos que viram os estrangeirismos e a palavras-valise do escritor.

É sabido exaustivamente que arte existe para dialogar com seu leitor, provocar reflexões, analisar criticamente as epistemes e doxas, compreender de que são feitos os alicerces éticos, morais, filosóficos e estéticos do Sistema. Que a arte existe para discutir seus próprios pressupostos "artísticos", as razões de sua existência e suas ambivalências, é uma quase obviedade recente, que mantém entretanto o poeta e o escritor numa zona de desconforto, eliminando o antigo gênio e senso visionário de suas costas. Concordo com tudo isso. Pouco se disse até agora, entretanto, sobre o fato de que esse diálogo requer uma profunda compreensão, ou tentativa de entendimento de cada um desses discursos. E mais: que dialogar artisticamente com os sistemas, requer falar a linguagem dos sistemas, entrar em contato com eles, estranhar e reciclá-lo. O estranhamento da palavra do outro é um princípio da ideia que motiva ao texto.
Reproduzir uma homilia em um texto que se quer "artístico" torna a homilia um gênero emprestado pelo artista sobre o qual se pensa menos o Deus das Escrituras Sagradas, e sim a própria homilia, a verdade dos padres, a conduta dos paroquianos e a razão de existir da própria Igreja, quando em confronto com suas ações, como também, como não, a conduta do artista enquanto ser que reflete e é refletido no texto. A homilia deixa de ser a palavra de Deus e se torna a palavra do homem, ou pior: do artista, que se revela e se deseja pecador, sem verdades que não seja entender o pecado e o que é ser pecador. 
Da mesma forma, um poema cujo tema norteador é uma receita de feijoada, como fez Vinícius, é uma receita ou um poema? É um "poema menor", dirão. Mas é um poema. Resta questionar se o fato de se rejeitar o feijão e o toucinho como categorias epistemológicas da Cultura suspende o poema como referente criativo que aponta aspectos existenciais do modus vivendi dessa cultura. Adiciono: o poema foi construído com todos os recursos que se permite reconhecer como poema, ainda que se vá além das rimas e da metrificação. Pensa-se artisticamente um modo de ser e de viver a partir da feijoada e da rede que se convida ao ócio como formas pré-estabelecidas de vida. Parte-se da feijoada para a vida, ou da forma para o conteúdo, sem hierarquias.
Categorias e critérios de qualidade seguirão existindo, como um norteador da grande "Arte", e para separar o joio do trigo. Existe a lista que rotula os poetas estruturalistas, os da "arte pela arte", os dos torneios estilísticos, os que pensam os macacos azuis e que evitam o leitor. Penso que a Arte é um critério dos outros. Os escritores continuam escrevendo como sua crença pessoal, enquanto ouvem música, bebem uma garrafa de uísque ou praticam atividades íntimas, intimistas ou "digestivas", como o Bernanos escritor de sala de jantar, do poema de JCMN. Nesses momentos sem estética, a ideia para um novo texto lhes assalta. 
No mais, os leitores são projeções abstratas que o autor não pode adivinhar, didatizar para eles, criar notas de rodapé nem dirigir a fé e as opiniões deles sobre o que quer que escrevam. Escreve-se para si e para a multidão. Noves fora, resta o texto e o delírio do poeta e do escritor como o clichê mais barato de quem faz crer que cada verso é fruto de um surto sem a menor coerência. Não é.

Quando entrei em contato com a escrita do OuLiPo (Atelier de Literatura Potencial), foi uma surpresa de quem não imaginava outras pessoas com os mesmos dilemas. Quais? Que a forma pode vir antes do conteúdo, como motivador, ou como inspirador da ideia. Para maiores notícias sobre o Grupo criado há mais de 50 anos na França, por François Le Lionnais e por Raymond Queneau, sugiro algumas palavras apresentadas no site Literatortura. No mais, não se trata de justificar o pecado, mas de demonstrar ao público interessado, e estimular os poetas e escritores a conhecer de que matéria é feita as artes literárias: da palavra em agonia. 
O Ateliê de Arte e Literatura Potencial foi posto em prática por mim como grupo de estudos e criação literária entre estudantes de Letras nas dependências da Faculdade da Escada (FAESC), na cidade de Escada, Mata Sul de Pernambuco. Dialogamos durante um ano e meio sobre atividades com finalidades didáticas, mas que, com seu término, não arrefeceu meu desejo de unir escritores e poetas para juntos discutirem ideias e possibilidades de se escrever textos dessa ou daquela maneira. Não se trata de uma confraria de amigos que se autoelogiam, como consolo de sua pouca imaginação e covardia estilística. Nem de oficinas literárias para forjar autores sob a batuta de um veterano mentor. Não é minha intenção formar uma panelinha, com regras do senhor Rei e ângelos entoados antes e depois do jantar. Espaço de encontros sazonais onde primeiramente se come e se bebe (as bebidas alcoólicas, recomenda-se para depois das atividades), e onde se conta causos e depois se apresenta seus textos, explicando a receita da "feijoada literária" servida on the rocks. O AliPo quer, a exemplo do OuLiPo de Queneau e Perec, servir de inspiração, para que grandes obras surjam ou não dali, e o que vier será lucro. Dialoguemos.

Comentários

  1. Gostei do artigo. Agora sim compreendi a partir dele sobre o objetivo do grupo. Que a gente possa nas nossas muitas reuniões dialogar, trocar experiências, informações, artes e que possamos escrever muito e compartilhar com os outros a nossa maneira de pensar e escrever literatura. Estamos juntos!!!

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  2. Oi, Eudes! Vamos fazer e refazer arte. Levar adiante as múltiplas possibilidades e potencialidades da escrita vertiginosa que é a literatura!

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