Ofício


Ando perdendo minha fé na literatura. Eu acreditava que escrever era convencimento, lugar na história, diálogo com as folhas caídas e trovas entre os dedos da amada. Hoje, não acredito mais numa literatura que não seja extremista, filisteia e mocreia. A demência é a salvação para tanta inteligência de meus contemporâneos. A palavra-limite, a palavra-meristema, os neologismos sem grafia, a traição a todas as amizades, a infidelidade a todas as religiões das gramáticas, o genocídio de todas as classificações sociológicas, o racismo contra a palavra-branca, a alma branca da clareza textual, a faca nos dentes contra os sintagmas-nominais-verbais-impessoais. Sem didatismos e notas de rodapé aos colonizados pela clareza e concisão milenares. A literatura é outra coisa. E tudo isso.

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