Nossa técnica, criada há várias postagens atrás,
consiste em desenvolver roteiros a partir de imagens que constituirão o núcleo
de pequenas narrativas. São imagens 👴👵 em domínio
público, que deverão ser recontextualizadas. Existem algumas regras simples
para essa narrativa icônico-verbal:
1) As imagens deverão ser fotografias de pessoas,
famosas ou desconhecidas;
2) Os temas das fotos são abertos, mas deverá
conter um clima nonsense, incomum, cômico ou de alguma forma dramático;
3) Quanto mais politicamente incorreta parecer a
imagem, "melhor";
4) O trecho narrado deve apresentar as
personagens na imagem como se fossem membros da família de um narrador
fictício, e a cena na imagem deverá distorcer o retrato, emprestando-lhe um
caráter positivo, que atenue o drama testemunhado na imagem. Assim, amplia-se o
nonsense, o drama e o choque da pequena narrativa, mantendo-se, como nos
parece, a natureza da ficção artística e a missão de todo escritor: criar uma
lente de aumento do real;
5) Usar a imaginação e procurar justificar
absolutamente "tudo" na imagem, por mais absurda que pareça sua
composição, tornando cada cena convencional e ordinária. Atenção: uma vez que o
absurdo, o dramático, o espetacular se encontra na imagem, e a finalidade é tornar
"normal" a cena, deve-se evitar descrições na mesma direção. Ou seja,
animais não devem ser descritos como criaturas falantes nem metamorfoseadas,
por exemplo, nem "monstros" deverão ser descritos como monstros
fabulísticos, a não ser como metáfora e similares.
Exemplo:
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| (Fonte da Imagem, misteriosdomundo.org) |
Minha tia-avó Gertrudes dizia que sua irmã,
Albumina, era fascinada pelo pedestal da foto, a peça preferida na mobília da
casa. Nada mais ao redor parecia-lhe combinar com a peça, com seus pés altos e
curvos, sua brancura impecável, suas filigranas entalhadas. Escolheu um canto
de uma sala, onde imaginou ofender a peça como traste escorado num canto. Nada
que lhe pusesse em cima mantinha seu esplendor; ao contrário, ofendia ainda
mais o que de nada necessitava para completar suas feições. Foi mudando o
pedestal de lugar, retirando cada móvel em redor, até que permaneceu único no
centro da sala. Desconsolada com a ação do tempo sobre a peça, a senhora
Albumina quis enfim perpetuar seu móvel, e chamou um fotógrafo para registrar o
que desejava ser o último suspiro de felicidade dela na vida ao lado de sua
querida peça. Insatisfeita com cada fotógrafo, Tia Albumina acusava todos de
não retratar a brancura esplendorosa de seu pedestal como a coisa mais
contrastante do ambiente. Enfim, entrou na casa de minha tia-avó, dizia Tia
Gertrudes, um pintor-retratista que viu na peça uma obra de arte. Após diversas
tentativas de registrar a fotografia perfeita, o homem sugeriu que a própria
presença de minha tia ao lado do pedestal "ofendia" seu tom divino.
Ela aceitou ser vestida com a velha mortalha branca da mãe, e assim entrar para
a eternidade de pós-mortos dos dois, pedestal e ela. Para assumir o papel
definitivo de futuros falecidos que entrariam para a história, o retratista
pintou minha tia-avó com todo pó de arroz que podia. Enfiou-lhe dois chumaços
longos de algodão nos ouvidos, à guisa de marcos angelicais, e espalhou cartas
aos vivos pelo chão, juntamente com o restante do pó, de que deveria levantar
nuvem com o bater do pé, enquanto fotografava. A solidão de minha tia-avó na
foto, porém ofendeu o fotógrafo, que resolveu criar uma cena de casamento entre
a terra e o céu, tendo o pedestal como liame. Absolutamente não se agradou do
esposo de minha tia, o tom de sua pele, o rosado de suas bochechas, o exagero
de carnes, até que decidiu com a modelo fotografá-la ao lado de um anjo nu de
carnes e cores, alvo como a pureza do móvel e de minha tia Albumina. Meteram um
esqueleto alugado na composição, segurando um velho trombone que faria a vez de
trompa de anjo. O excesso de branco, entretanto, perdia o pedestal no mundo de
brancura da foto. Veio as meias de minha tia e o gato sobre o móvel, que
insinuaram a relação entre luz e sombras, mistério e revelação, o conflito e
diálogo entre céu e inferno, no meio do qual o pedestal elevava seus elementos
para a própria salvação!

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