Criação alipiana: “chave da história”. Uma
história deve ser contada em torno de um mistério cujo enigma está presente nas
letras iniciais de cada parágrafo. Aqui, o mistério da personagem Vânia está na
palavra “viuvez”. Uma variação é que o leitor encontre tal chave no início e no
final de cada parágrafo, segundo seus objetivos. Exemplo:
Vânia
Vânia enxotava todos os seus pretendentes.
Aparentemente não gostava de nada que eles tinham a oferecer. Nem pães, nem
roupas, nem beijos, nem sobrenomes. Nenhum poema a comovia, nenhuma promessa
financeira massageava suas vontades, ela era vã para tais cortejos. Sua
família, gente rica e famosa na cidade, passava vergonha, buscando jovens bem
resolvidos para a moça, para dar continuidade às suas tradições.
Insondável, as pessoas diziam que era fria
como o diabo e diabólica no gelo com que tratava seus enamorados. Se gostava de
alguma coisa ou de alguém, ninguém ficava sabendo além dos rapazes.
Desconfiavam que os pretendentes sabiam, mas ao serem questionados, nenhum
contava a verdade. Que mistérios guardava aquela moça, que vontades revelava
aos sujeitos, que deixavam sua família com os nervos em frangalhos?
Um a um, de advogados a engenheiros, de
artistas a professores, ninguém saía casado com ela, e todos saíam prostrados.
Vânia os estorvava e estorvava ao pai, a quem deixou soltar seguinte frase a
conviva da casa, de sua semi-confiança: “Não é bem que não queira casar-se, são
as condições que ela impõe”. Bastou essa frase sem maiores detalhes, para a
boca miúda da cidade especular toda a vida.
Valorizada a cada dia, as pessoas defendiam
a possibilidade da família toda ter qualquer meta de alcançar pretendente acima
de todos em dinheiro, fama e sofisticação. Apostavam em dívidas do velho
patriarca, procurador de justiça da cidade, dos tantos parasitas dentro de casa
para sustentar, gente gastadeira até não poder mais. Mas as histórias de
dívidas foram sendo postas abaixo, quando Vânia rejeitou o sobrinho de um
Ministro da República. Nessa noite, depois de um jantar, podia-se ouvir da rua
os gritos do pai com a moça e seus lamentos contra os gostos esquisitos da
filha, verticais menos nos gastos do que no desejo ardente que não dava na
cara, e se dava, era óbvio demais a cada pretendente, apenas.
E os meses foram passando, os anos, a
família deixou de mão, e Vânia foi sendo esquecida pelos moços. Continuava
frequentando a alta sociedade, enquanto passeava pelos subúrbios, de cima a
baixo, atrás do companheiro certo, chave de seus mistérios, acima de outros
pretendentes. Em sua estampa frondoso enigma, com frases horizontais de cada
apaixonado deixado pelo caminho de promessas incumpríveis. Os anos passaram. Às
vésperas de fazer trinta anos, iam embora o frescor e sua juventude em flor,
suas carnes desejadas; o brilho do olhar esmaecia, e surgiriam em breve a tez
gris em suas madeixas há muito desconformes com a idade que sustentava. Não se
dissipavam suas condições misteriosas para casar. Até o dia de seus trinta
anos.
Zanzava pelo centro o velho Setembrino,
advogado de longa fama. Bastante cansado pela longa vida, o Sr. Setembrino
havia enterrado sua segunda esposa há 1 ano, e diziam estar na cidade atrás de
mais uma mulher. Não enganava ninguém com aquele olhar ladino, buscando presa
ao redor enquanto conversava com as pessoas. Quando avistou a filha do velho
Procurador andando por perto, admirou as formas e foi atrás do pai, interessado
em fazer negócios. Para surpresa de todos, Vânia adorou recebê-lo e ofertou
imediatamente suas condições. O velho aceitou, mas era o Setembrino quem, um
ano depois, enterrava sua terceira esposa.

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