Marta recebia flores de Antônio
na primavera, abraços no outono, mãos quentes no inverno e beijos sôfregos no
verão. Amavam-se exponencialmente, e a cada estação renovavam a esperança no
mundo de que o sol apenas nascia para ungir aquele casal de bênçãos e da
felicidade mais contagiante. Era tanto amor que se projetava de Marta e
Antônio, que diriam nascedouro de estrelas, com temperatura e densidade
suficientes de paixão, que explodia como uma supernova, apenas para formar uma
nova galáxia de sentimentos intensos em torno deles.
Então, a luminosidade daquele
amor expandiu-se até clarear toda a humanidade. Tornou-se rubra de paixão e
erotismo, gigantesca, ferveu os oceanos e deixou as bocas secas, os ânimos
exaltados, os humores à flor da pele, queimou todo o hélio, derreteu as
geleiras, perdeu todos os limites de pudor e de cortesia, selvagem e primitiva,
obediente às próprias regras dos corpos atraídos à gravidade um do outro.
Até que esfriou, encolheu-se,
tornou-se pesado, cerrado e ensimesmado, compactado em esfera de pura
animalidade, existente enquanto a gravidade prendesse ambos àquela convivência e
a atração entre os corpos e a pressão do núcleo isotérmico ainda fosse
suportável para os dois, enquanto houvesse energia, que já não vinha mais das
convenções sociais, mas do que neles tinha ficado dessas convenções.
Quando a massa de seus corpos se
tornou demasiado grande e desequilibrada com o pique para as brincadeiras e a
vontade das brincadeiras e a força de atração que levava às brincadeiras, e já
não tinham mais fôlego para as brincadeiras, Marta e Antônio tornaram-se anões,
de faces não mais rubras, mas pálidas, alvacentas e cansadas. O amor esfriou,
sua luz esmaeceu, e o que antes os atraía, passou a repelir um ao outro. Tudo se
tornou nebuloso, o colapso era iminente. Desabaria em seu próprio peso balofo
de um amor que logo se tornaria apenas uma palavra no dicionário.

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