Fábula Transformada


Na sequência, um S+7 da fábula O Lobo e O Cordeiro, de Esopo. O S+7 é criação do autor Jean Lescure, do OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentiele), e consiste em trocar todos os substantivos de um texto pelo sétimo encontrado na sequência de um dicionário.  Aqui, uma adaptação com a técnica a partir de um texto de Fedro:

O Lobo e o Cordeiro
"Ao mesmo rio vieram compelidos pela sede, o lobo e o cordeiro. O lobo estava mais acima e o cordeiro bem mais abaixo. Então o predador, incitado por sua goela maldosa, encontrou motivo de rixa: Estou a beber e tu poluis a água!
O lanoso, tímido, responde: Como posso fazer isso de que te queixas, ó lobo? De ti para meus goles é que o líquido corre.
Repelido pela força da verdade, ele replicou: Cerca de seis meses atrás falaste mal de mim.
O cordeiro retruca: Eu? Então eu sequer era nascido...
Teu pai é que me destratou!
Em seguida dilacera a presa, dando-lhe morte injusta."

Na sequência:

A Loção e a Coreografia
Apesar dos mesmos riscos que correm os segmentos comerciais da Loção e da Coreografia, bem mais abaixo de si o primeiro julga estar o segundo, para quem não se agrada de dança, mas gosta de cheirar bem. Então, a predileção da multidão, julga aquele que é por si. Incitado como uma goiva maldosa que desbasta o madeiro, o mercado de Loção encontrou um jeito de atropelar de vez o segmento de Coreografia, como um motorista que tem essa prática perversa como robe. “As pessoas usam nossos produtos como fossem uma jóia, verdadeira água-marinha!”
Como um desses tímidos e lanosos animaizinhos, o segmento da Coreografia responde:
“E como poderia eu fazer isso também de que te gabas, ó Loção? De tua seiva falsa para meus suaves golpes no vento, tudo difere, pois às almas é que embriago como odor de lis que corre”.
Repelido pela formação da poética resposta, e sem vereda de saída, a Loção replicou:
“Hoje, como desde seis meses atrás, falas ainda mal de mim?”
A Coreografia retruca: “Eu? Então eu sequer era nascido, só ensaiava longe do público...”
“Teu painel é que me destrata, com teus belos meneados e promessas de Paraísos dos sentidos!”
Em seguida dilacera a presença de toda compaixão no diálogo com a Coreografia, lançando-lhe injustos jatos de fragrância no rosto, como moscardos, e a querer perfumar sua flor já perfumada.

Comentários